3.2.06

Sobre o ato de esperar


Esperar:
1. Ter esperança em; contar com
2. Estar ou ficar a espera de; aguardar
3. Supor, presumir, imaginar


Ao esperar, o tempo fica em suspenso e a vida acontece em algum lugar, lá fora, longe do seu alcance. A mente funciona, mas o corpo permanece imóvel, pois a espera não comporta a ação.

Ao esperar, os pensamentos caminham entre devaneios e desejos. A memória funciona como um filme, selecionando lembranças de situações, pessoas, cheiros, músicas, em busca de distração.

Ao esperar, as emoções afloram, pois a exepctativa do que está por vir carrega a esperança de algo positivo aconteça.

Ao esperar, o ser fica sujeito ao inesperado...

3 comentários:

Alisson da Hora disse...

Pois é...as coisas acontecem com o Tempo ao redor, não com ele ao nosso redor... eu, com a minha impaciência congênita tenho uma natural aversão ao ato de esperar...mas a gente tem de aprender, nem que seja esperando...até por que, não tem outro jeito mesmo...

Alisson da Hora disse...

Alcoólicas
de Hilda Hilst


É crua a vida. Alça de tripa e metal.

Nela despenco: pedra mórula ferida.

É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.

Como-a no livor da língua

Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me

No estreito-pouco

Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida

Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.

E perambulamos de coturno pela rua

Rubras, góticas, altas de corpo e copos.

A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.

E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima

Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

(Alcoólicas - I)



* * *



Também são cruas e duras as palavras e as caras

Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida

Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos

Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes

Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos

Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas

De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo

Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas

Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento

Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte

É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.

Sussurras: ah, a vida é líquida.

(Alcoólicas - II)



* * *



E bebendo, Vida, recusamos o sólido

O nodoso, a friez-armadilha

De algum rosto sóbrio, certa voz

Que se amplia, certo olhar que condena

O nosso olhar gasoso: então, bebendo?

E respondemos lassas lérias letícias

O lusco das lagartixas, o lustrino

Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos

E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.

Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me

Na noite navegada, e rio, rio, e remendo

Meu casaco rosso tecido de açucena.

Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

(Alcoólicas - IV)



* * *



Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito

Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado

Salpicado de negro, de doçuras e iras.

Te amo, Líquida, descendo escorrida

Pela víscera, e assim esquecendo

Fomes

País

O riso solto

A dentadura etérea

Bola

Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida

E um Mais que se agiganta, um Mais

Conquistando um fulcro potente na garganta

Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.

Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos

Quando não sou líquida.

(Alcoólicas - V)

Alisson da Hora disse...

Imagino o medo...por vezes sou vítima desse último olhar pra baixo, ou do angustiado olhar pra cima e não saber onde e quando chegaremos a algum canto...e se chegaremos intactos...
Compartilho em tudo que sentes...meu medo ainda é real, minha Irmã...e é com a ajuda de pessoas como você que eu teimo em subir...nem que seja, para um dia,poder estender os braços para quem vem mais atrás...
Grande beijo e força sempre...